Direito do Trabalho

Atividades Perigosas pela NR-16: quem se enquadra

Quais atividades e operações são consideradas perigosas pela NR-16 e pela CLT, os critérios de enquadramento e exemplos práticos por setor de atuação.

Por Gustavo Sella 3 min de leitura Atualizado em 19 de junho de 2026

A identificação das atividades perigosas no Brasil segue principalmente dois instrumentos: o art. 193 da CLT (que define as categorias gerais) e a NR-16 do Ministério do Trabalho (que detalha os critérios técnicos). Conhecer as categorias e os critérios de enquadramento é essencial para saber se a atividade exercida gera direito ao adicional.

Categorias de atividades perigosas

1. Inflamáveis e explosivos (NR-16, Anexos 1 e 2)

Inflamáveis: o enquadramento depende da quantidade de produto e da distância entre o trabalhador e o estoque. A NR-16 define áreas de risco e zonas de classificação. Principais exemplos:

  • Postos de abastecimento de combustível (operadores que abastecem ou manuseiam bomba)
  • Motoristas de caminhões-tanque de combustível
  • Trabalhadores em refinarias e plantas petroquímicas
  • Operadores em depósitos de GLP (gás de cozinha) acima dos limites de armazenagem
  • Trabalhadores em destilarias de álcool

Explosivos: trabalhadores em mineração, construção civil com detonação, fabricação de fogos de artifício.

2. Energia elétrica (NR-10)

A NR-10 (Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade) define as condições de risco. Têm direito ao adicional:

  • Eletricistas e técnicos que trabalham em linhas energizadas (em tensões acima de 50V em CA ou 120V em CC)
  • Trabalhadores que realizam manutenção em painéis energizados
  • Instaladores de linhas de transmissão de alta tensão

Não têm direito: eletricistas que trabalham apenas com circuitos desligados (sistema de bloqueio/travamento) e trabalhadores em instalações de baixa tensão dentro dos padrões de segurança da NR-10.

3. Radiações ionizantes e substâncias radioativas

  • Técnicos e médicos em radioterapia e medicina nuclear
  • Trabalhadores em usinas nucleares
  • Técnicos em radiologia industrial e gamagrafia
  • Pesquisadores em laboratórios com materiais radioativos

4. Risco de roubos e violência física

Incluído pela Lei 12.740/2012, art. 193, II da CLT. A aplicação prática é ampla:

  • Vigilantes e seguranças — diretamente na norma
  • Transportadores de valores (maloteiros, carros-fortes)
  • Bancários em caixas e agências com alto índice de assalto (jurisprudência)
  • Motoristas de ônibus em linhas com histórico de violência (jurisprudência)
  • Trabalhadores de lotéricas e casas de câmbio

5. Motociclistas profissionais

Lei 12.997/2014 — qualquer trabalhador que usa motocicleta como ferramenta de trabalho no exercício profissional (entregadores, motofretistas, motoboys de delivery) tem direito ao adicional, independentemente de acordo coletivo.

Contato intermitente: a OJ 05 da SDI-1 do TST

A OJ 05 estabelece que o contato meramente eventual com agente perigoso não gera direito ao adicional. Mas “eventual” tem sido interpretado de forma restritiva: a simples intermitência da exposição (ex.: entrar na área de risco por alguns minutos diariamente) não é suficiente para afastar o direito. O que a OJ veda é o contato raro, esporádico, que não faz parte da rotina do trabalhador.

Se a exposição é rotineira — mesmo que não ocupe toda a jornada —, o adicional é devido em sua integralidade.

As informações aqui apresentadas têm finalidade exclusivamente educativa e refletem a legislação e a jurisprudência vigentes, que estão sujeitas a alterações. Cada situação tem particularidades que podem modificar o resultado. Antes de tomar qualquer decisão, consulte um advogado para analisar seu caso concreto.

Perguntas frequentes

Faxineiro de posto de combustível tem direito ao adicional?

Depende. O trabalhador que realiza limpeza na área de abastecimento ou próximo aos tanques de combustível, com exposição habitual a vapores de inflamáveis, pode ter direito ao adicional. A análise é feita pelo laudo pericial, que verificará se a exposição ocorre em área de risco classificada pela NR-16. O simples fato de trabalhar no posto não é suficiente — é necessário que a atividade implique contato com a área perigosa.

Motorista de transporte de passageiros tem direito por risco de assalto?

Pode ter. A jurisprudência tem reconhecido o direito ao adicional de periculosidade para motoristas de ônibus e operadores de caixa em bancos e agências que estão regularmente expostos ao risco de assalto à mão armada. A análise considera a frequência de ocorrências na região e o histórico de violência na atividade.

Trabalhador de call center de empresa de segurança tem direito ao adicional?

Em geral, não. A exposição ao risco de violência física deve ser direta e presencial. Trabalhadores que monitoram câmeras ou atendem telefones, sem presença física em áreas de risco, normalmente não se enquadram no adicional de periculosidade por risco de violência.

O que acontece se a empresa classifica errado minha atividade como não perigosa?

Se o trabalhador tem direito ao adicional e a empresa não paga, ele pode cobrar na Justiça do Trabalho os valores retroativos dos últimos 5 anos (dentro do prazo prescricional). O laudo pericial judicial será o instrumento para comprovar a periculosidade que a empresa negou.

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